
O sertão baiano silencia o cansaço do cotidiano para dar voz à poesia. Entre os dias 13 e 14 de março, o município de Quijingue sedia a Festa Literária de Quijingue (Fliqui), evento que transforma praças e escolas em palcos de resistência cultural. Com o tema “Um povo de ginga”, a festa promove o encontro entre a literatura, a música e a performance corporal, priorizando a oralidade e as matrizes africanas e indígenas.
A programação, inteiramente gratuita, faz parte do projeto Circulações Literárias da Bahia Ano II, iniciado em outubro de 2025. A iniciativa é fruto de uma cooperação entre a Fundação Pedro Calmon (FPC) e a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SecultBA), que selecionou 14 artistas da palavra para percorrer o estado com suas produções.
Corpo como texto
Diferente de feiras literárias tradicionais, a Fliqui foca na “ginga”. Segundo a organização, o objetivo é aproximar diferentes linguagens artísticas do público, mostrando que a literatura não habita apenas as páginas dos livros, mas também o movimento do corpo e a fala dos mestres e mestras de saberes tradicionais.
No primeiro dia (sexta-feira, 13), a escritora Sabrina Andrade apresentou o documentário Cartografia de Nós, que registra a circulação de autoras negras baianas, jogando luz sobre vozes frequentemente silenciadas pelo mercado editorial convencional.
Destaques do sábado, 13
Hoje, dia 14, a programação se intensifica com três nomes centrais:
Aninha Torres: Traz a Circulação Muquiá, um diálogo profundo sobre feminismo negro e ancestralidade.
Ananias Serranegra: Apresenta Corpo e Palavra, um circuito dramatúrgico que utiliza a memória encarnada como base para a cena.
Nívia Maria Vasconcellos: Fecha a jornada com a performance OCORPOÉUMAFOTONOESCURO, unindo poesia visceral e expressão visual.
Fomento à cultura baiana
Cada um dos 14 projetos selecionados pelo edital recebeu um aporte de R$ 25 mil. O recurso não é apenas um prêmio, mas um viabilizador logístico: o edital exige que os autores circulem por, no mínimo, três municípios diferentes de sua residência.
Para a SecultBA, a estratégia garante que a produção intelectual de Salvador ou do Recôncavo chegue ao Sertão, e vice-versa, criando uma rede de intercâmbio que valoriza o escritor baiano e democratiza o acesso à leitura em regiões periféricas aos grandes centros urbanos.
“A iniciativa busca ampliar a oportunidade de diálogo com públicos diversos, promovendo a diversidade de vozes e narrativas que compõem a identidade da Bahia.” — Trecho da nota oficial da FPC.


